Conversa “Terra em Continuidade”, integrada no programa público da exposição “Terra Crua” do MAC/CCB – Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitetura, Lisboa. Curadoria de Madalena Vidigal e moderação de Tânia Teixeira. 11 de Outubro de 2026, às 14h.
Terra em Continuidade – O legado da arquitetura e construção em terra
A arquitetura e construção em terra representam um legado cultural, técnico e ambiental que continua a influenciar a forma como projetamos e construímos hoje. Entre a arquitetura vernacular e popular, tantas vezes anónima, e as experiências contemporâneas nacionais e internacionais, existe um conhecimento que importa preservar, estudar e transformar.
Na minha prática, este legado manifesta-se tanto na utilização de técnicas e soluções construtivas tradicionais como numa forma de olhar para a arquitetura: a relação entre escala, matéria, luz e sombra, a expressão natural da terra e a integração dos edifícios no seu lugar. O contacto com construções antigas, a sua reabilitação e a aprendizagem com arquitetos, empreiteiros e outros profissionais têm sido fundamentais para desenvolver uma abordagem que cruza experiência, investigação e experimentação.
Acredito que a construção em terra deve continuar a desenvolver-se em diferentes escalas. Na habitação e em projetos de menor dimensão, importa manter vivo o saber-fazer artesanal e local. Em edifícios de maior escala, a pré-fabricação da taipa e a utilização de blocos de terra comprimida (BTC) podem abrir novas possibilidades, tornando estas soluções mais abrangentes e competitivas. Para isso, é necessário investir na formação, na investigação, na colaboração entre arquitetos, engenheiros e empreiteiros e na criação de condições que permitam reduzir os custos e ampliar a sua utilização.
A terra crua oferece também uma relação particular com o território, a cultura e o ambiente. É um material que permite explorar diferentes expressões arquitetónicas e que, quando devidamente integrado no projeto, pode contribuir para a qualidade dos espaços interiores e para uma construção mais consciente dos recursos disponíveis.
O desafio é, por isso, dar continuidade a este legado sem o cristalizar. Aprender com as gerações anteriores, compreender os seus conhecimentos e adaptá-los às exigências contemporâneas, mantendo aberta a possibilidade de experimentar novas soluções.
Construir com terra é preservar uma cultura construtiva viva, capaz de evoluir e de responder aos desafios do presente e do futuro. Para que isso aconteça, é essencial continuar a projetar, construir, partilhar experiências e criar oportunidades para que este saber-fazer passe às próximas gerações.
Raquel Morais, Lisboa, 15 de Outubro 2026